Hardwired… to self-destruct: um case de Heavy Metal digital

Depois de oito longos anos, a maior banda de Heavy Metal da história (e por quê não dizer do mundo?) lança o sucessor de Death Magnetic (2008): “Hardwired.. To Self-Destruct”. Talvez este seja o álbum mais aguardado do Metallica desde seu homônimo, mais conhecido como Black Album, tendo em vista que seu antecessor tinha enviado o seguinte recado: “estamos de volta às origens”. Porém, este texto não é uma resenha musical de um álbum, mas trata de sua supreendente estratégia de lançamento.

Como anunciado há meses, o novo álbum seria lançado no dia 18 de Novembro de 2016 e, para o aquecimento, a banda lançou três singles simultaneamente nas principais plataformas de música, incluindo o Youtube – que há meses foi duramente criticado por um dos diretores da Q-Prime, escritório que gerencia a carreira da banda há mais de 20 anos. Hardwired, Moth into Flame e Atlas, Rise! foram lançadas semanas após semanas, causando alvoroço entre os fãs, como entre este que escreve. Até aí nada fora da caixa, nada de novo…

Porém, tanto a banda, quanto sua equipe, mostraram a genialidade do lançamento quando partiram para uma daquelas inovações típicas de grandes ideias que nos fazem pensar: por que nunca pensamos nisso antes?

Em menos de 48 horas antes da data prevista, eles escolheram 10 grandes portais de notícias (o Brasil foi palco da grande estreia mundial com o Globo.com) e de músicas (Rolling Stone (USA) e BraveWords (UK)) para lançarem em primeira mão cada uma das 10 faixas restantes do álbum, a cada 2 horas! Com isso, suas músicas foram noticiadas separadamente em cada parte do mundo, como uma novidade diferente, onde os portais se esforçaram em dar espaço ao presente que lhes fora dado: ter uma canção inédita do Metallica apenas para si.

 

Assista ao vídeo abaixo

 

O resultado? Fãs e toda a comunidade da música com ênfase no Rock compartilharam, mostraram, debateram, ouviram e curtiram cada música sem que ao menos pudessem pensar muito nos contras – caso existissem… A cada 2 horas todos nós éramos impactados com uma nova faixa, como se todo o deleite de fãs e da crítica especializada tivesse sido estrategicamente pensado, trazendo de volta aquela forma que existia em um tempo não muito distante, onde um álbum era calmamente ouvido, digerido e cada música era cuidadosamente analisada sem a correria do digital e streaming, onde a audição acaba sendo muitas vezes corrida e superficial. Pelo contrário: o que tivemos foi aquela rotina que se tinha na época dos vinis e dos CDs, quando escutávamos música a música e podíamos tecer comentários, esperando ansiosamente a próxima carga de sentimentos.

Marketing e A&R estavam bem unidos. O primeiro fez com que toda a mídia se engajasse em divulgar música a música, o que resultou no fato de cada uma ter sua própria crítica musical. Já o A&R fez com que todos dissecassem, aos poucos, o novo álbum da banda.
Depois disso, tivemos mais uma etapa de um case minuciosamente pensado: horas depois de divulgada, cada música entrava diretamente no canal da banda no Youtube, para que outra parcela do público que não tivesse sido impactada pela mídia, tivesse acesso pela maior plataforma de mídia audiovisual do planeta.

Mas qual seria a razão do Metallica que, outrora amaldiçoou a plataforma, agora lançasse um novo trabalho exclusivamente ali? Para mim parece simples: eles agora detém os direitos sobre das masters (ainda tendo acordos com a Universal) e montaram uma robusta comunidade dentro da rede, recebendo agora valores significativos pagos pela plataforma. E há de convir que, com um canal ultrapassando 1.8 milhões de assinantes, a quantia não é baixa para se jogar fora, ainda mais sabendo que é inevitável que as músicas caiam na rede. O pensamento é simples: se é para o fã ter acesso pelo Youtube, que seja à um conteúdo de qualidade e remunerado. A mentalidade do público hoje em dia é de preferir conteúdos oficiais, desde que não tenham que pagar valores extras por isso. Além disso, com todo o burburinho causado pela estratégia de divulgação, como era de se esperar, ultrapassaram a marca de 10 milhões de visualizações em apenas 24 horas. Eles tinham conseguido o que queriam: receber pela sua arte sem terceiros através da montagem da Blackened INC., sua própria gravadora – ainda sim com o conteúdo licenciado para uma major. Vale ressaltar que a banda há pelo menos dois anos já testa a plataforma do Youtube lançando clipes de shows próprios, onde detinham, acredito eu, os direitos de exploração financeira e, assim, sentiam financeiramente o poder de um canal em crescimento agudo. Não à toa, no mesmo dia do lançamento, fizeram um show com transmissão online pela plataforma, o que resultou em mais 50.000 de visualizações em menos de 2 horas.

Engana-se quem pensa que o Metallica sempre foi contra o mercado de música digital. Eles apenas sabiam que a realidade de anos atrás não convinha com o que eles queriam e deveriam receber, financeiramente e artisticamente falando. Eles estavam preocupados em entregar um material de qualidade e serem remunerados pelo mesmo. Em um primeiro momento (anos 2000) foram pelo caminho corajoso, diferente de grandes bandas que reclamavam nos bastidores e recuaram apenas pra não ficar mal com os fãs, opinião pública e imprensa, de cobrar seus direitos pela arte. Errado? Não acho. À época não havia nenhum tipo de remuneração aos artistas e gravadoras, muito menos qualquer controle sobre o compartilhamento de suas músicas com qualidade. Então, seria hipocrisia dizermos que na época não se parecia ser o mais correto para qualquer profissional do mercado fonográfico ir contra a pirataria desenfreada.

Há anos, de forma vanguardista e inteligente, começaram experimentos com o Livemetallica.com, onde eles mesmo gravavam seus próprios bootlegs (tática copiada em escala bem menor pelo Dream Theater e algumas outras bandas e artistas) e lançavam na internet para o público adquirir. Ali tiveram o primeiro gostinho e visão de que o mercado da música digital era rentável, bastava estar no topo da cadeia financeira de suas próprias masters oferecendo material de qualidade.

Não demorou muito para começarem a correr atrás de novos contratos sobre suas masters e montar sua própria gravadora, pois tinham condições financeiras de montar uma equipe para gerir e comercializar sua música sem cair no ostracismo. Eles sabiam que não bastava serem independentes, tinham que montar uma equipe de porte, um A&R, uma equipe de royalties, jurídico, marketing entre outros setores para conseguirem se gerirem de forma profissional. Com tudo isso aliado a um grande nome e aporte financeiro, tudo era possível! Mesmo assim, não se aventuraram sozinhos, continuaram com a Universal, agora com o próprio selo licenciado pela mesma, até porque não poderiam largar de mão o alcance mundial do formato físico. Nota: o álbum físico será lançado em diversas versões e está com previsões de vendas que ultrapassam a quantia de 200.000 na primeira semana apenas nos EUA.

Voltando aos experimentos com sua própria gravadora/produtora, a primeira investida na nova realidade como gestores de sua arte não foi bem sucedida: o filme Through the Never rendeu milhões de dólares em prejuízo. A banda sabia que tinha muito o que avançar e a queda havia sido proveitosa para alçarem novos voos.

Já na questão do lançamento de álbuns próprios, desconfio que, com grandes profissionais e visionários, foi possível repensar contratos e acordos com plataformas de forma que tivessem todos os players como parceiros para divulgarem suas músicas e, ao mesmo tempo, serem justamente recompensados. Com isso, uniram o poder e qualidade de suas músicas ao poder do music business e, assim, ganharam mais uma vez.

A banda tem entre seus líderes, dois visionários: James Hetfield e Lars Ulrich, com funções bem claras e respeitadas. O primeiro é o responsável por inovar e dar qualidade à matéria prima: a música. O segundo, por gerir os negócios e fazer com que seus fãs tenham a melhor experiência.

O Metallica sempre buscou sair do status quo. Aconteceu nos anos 1990 quando quiseram dar um novo rumo musical e chamaram um produtor musical de fora do Heavy Metal (Bob Rock); na metade da década dos anos 1990 quando mudaram radicalmente sua imagem e música com os tão injustamente criticados Load e Reload; nos anos 2000, quando decidiram mostrar em filme toda a decadência e luta interna artística da banda; e, até mesmo, quando passaram a espaçar ainda mais seus lançamentos para que não se banalizassem (vide Iron Maiden e seus últimos cinco álbuns de qualidade questionável), deixando sempre o gostinho da espera por novidade para os velhos e novos fãs.

O Metallica é uma banda que procura se inovar sempre, tanto musicalmente quanto na sua imagem e divulgação.
Engana-se quem acha que agora a banda se rendeu às novas mídias pura e simplesmente por conveniência ou por se dar por vencida. Banda e equipe apenas lutaram durante anos pelos seus direitos, estudaram minuciosamente a nova revolução fonográfica e atacaram quando realmente tinham noção onde estavam pisando e como poderiam caminhar sem grandes tropeços – mesmo quando apostaram em um filme que apenas queimou dinheiro, por exemplo.

Mil palmas para a banda e sua nova e acertada forma de fazer e espalhar música.

 

 

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Sobre o autor:

Hugo Silva é produtor artístico e audiovisual, técnico de gravação e atua também na área de música digital da gravadora MZA Music, do produtor musical Marco Mazzola. Entre os projetos nos quais já participou, destacam-se os lançamentos de álbuns ao vivo no Rock in Rio de bandas e artistas como Sepultura, Frejat, CPM22, Skank, Jota Quest entre outros, o musical “Brazillian Dream” no Montreux Jazz Festival na Suíça, o musical final da Missa do Papa Francisco durante a JMJ Rio2013 que foi transmitido para todo o mundo e contou com a presença de mais de 3 milhões de pessoas, além do DMX – Digital Music Experience 2015, evento de música na era digital que contou com grandes nomes do mercado e artistas como Pitty, Emicida, Ana Carolina, Vanessa da Matta, Daniel entre outros.

 

 


Hardwired… to self-destruct: um case de Heavy Metal digital

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